MONEYBALL FALHA

Desculpe pela inconveniência, mas Moneyball é um erro.

Um erro como “filme de esportes”, um erro como “filme de beisebol”, até mesmo um erro simplesmente como um filme.

A demora e as idas e vindas para que a produção começasse deveriam ter sido sinais de que era melhor deixar o excelente livro de Michael Lewis em paz.

As seis indicações para o Oscar (incluindo melhor filme e melhor ator) são um exagero.

Moneyball teve três roteiros e três diretores diferentes envolvidos no projeto. Steven Soderbergh deveria ter comandado as filmagens, mas a Sony Pictures não gostou da ideia de fazer um filme que tivesse algumas características de documentário.

Minha impressão é que o resultado teria sido muito melhor se Soderbergh pudesse trabalhar como pretendia, uma vez que a grande falha do filme é não conseguir mostrar que o livro de Michael Lewis retrata um momento revolucionário.

Lewis publicou Moneyball em 2003, contando a história de como Billy Beane, executivo do Oakland Atlhetics (MLB), lançou mão de novas formas de avaliar jogadores de beisebol para descobrir valor de desempenho em atletas baratos e montar um time competitivo com baixo orçamento.

Essa nova maneira de medir performance gerou um tipo de estatísticas chamado de sabermetrics. Basicamente, são fórmulas matemáticas usadas para isolar o desempenho individual de um jogador, levando em conta apenas o que ele pode controlar.

O esporte entrou em guerra. De um lado, os scouts, que confiavam em “olho clínico”, experiência e intuição para identificar talento. De outro, os “sabermétricos”, geralmente jovens engenheiros ou administradores carregando seus laptops.

Billy Beane ficou do lado dos nerds e deu início a uma nova era no beisebol profissional. Hoje, não há um time que não tenha pelo menos um analista de números, o que alterou até a valorização e a remuneração dos jogadores.

Moneyball, o filme, falha na tarefa de mostrar essa revolução. Claro que não seria simples fazê-lo, é muito conteúdo para pouco tempo. Mas só há um momento em que se tenta evidenciar que o episódio foi histórico: quando Beane vai a Boston conversar com os Red Sox (que tentaram contratá-lo) e ouve do dono do time que ele estava mexendo com a sobrevivência de quem ainda se apoiava num modo ultrapassado de pensar.

Mas tudo bem. Vamos deixar de lado a importância dessa mensagem (talvez valiosa apenas para quem leu o livro e se interessa pelo tema) e olhar para o filme apenas como uma obra de entretenimento.

Moneyball falha de novo.

Não há drama, não há suspense, não há algo que leve o espectador até o final com um mínimo, que seja, de curiosidade.

Pois é sabido o que aconteceu com o Oakland A’s na temporada de 2003: começou mal, esquentou, ganhou 20 jogos seguidos e foi eliminado nos playoffs.

O único conteúdo dramático fica por conta da filha de Beane, que aparece duas vezes para perguntar ao pai se ele perderia o emprego. Novamente: sabe-se que não perdeu (afinal, Beane levou os A’s aos playoffs na temporada anterior. Não seria demitido por causa de um mau começo).

Então Moneyball é uma perda de tempo? Não totalmente.

Brad Pitt está bem no papel de Beane. Chama a atenção o fato de ele estar comendo ou bebendo algo em todas as cenas (creio que isso começou com “Onze Homens…”).

Jonah Hill também fez um belo trabalho como Peter Brand, o geek que convenceu Beane a “pensar fora da caixa”. Detalhe: Peter Brand é personagem fictício. O assistente de Beane no mundo real era Paul DePodesta, que não aceitou participar do filme e não autorizou o uso de seu nome.

No Brasil, Moneyball vai se chamar “O Homem Que Mudou o Jogo”. Perdeu-se a oportunidade de mostrar como, e de dizer que foi para sempre.

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14 Responses to MONEYBALL FALHA

  1. Julio disse:

    Desculpe pela incoveniência, mas esse post é um erro.

    AK: Não é uma inconveniência, desde que você explique sua posição. Mas isso é um pouco mais difícil.

    • Julio disse:

      Porque seria difícil? Não entendi? Você está partindo do pressuposto que os leitores não tem capacidade de argumentar ou de que sua opinião é impossível de ser questionada?

      Os dois casos estão errados. Mas como você não parece se importar muito com a opinião dos leitores…

      AK: Estou partindo do pressuposto que você acaba de confirmar, ao escrever o segundo comentário sem argumentação.

      • Juliano disse:

        Ui! E agora Julio?

      • Julio disse:

        Tudo bem André, vamos argumentar então:

        Você diz que o filme é “um erro como “filme de esportes”, um erro como “filme de beisebol”, até mesmo um erro simplesmente como um filme.”

        Ótimo: você diz que o novo jeito de medir as performances revolucionou o esporte, mas que o filme falha em mostrar essa evolução. Me parece que o filme não deixou de mostrar essa revolução. Claro que o tema é tratado de uma maneira mais leve, talvez até superficial para alguns (parece ser seu caso). Acontece que é muito difícil discordar que descrever minuciosamente todo o conceito da sabermetria tornaria o filme muito extenso, talvez até chato. O jeito encontrado para mostrar a mudança pode ter sido até meio caricato, com as conversas do Billy Beane com os olheiros e tal. Mas eu duvido que qualquer pessoa que assista o filme, mesmo que não entenda nada do jogo vai conseguir perceber que o sistema adotado por Beane era algo sem precedentes, que ia de encontro aos padrões da época e mudou a maneira de pensar o esporte.

        Óbvio que essa é uma questão de opinião. É claro que alguns vão dizer que não foi o suficiente, que o sistema adotado era algo muito mais profundo, e que o livro descreve com uma riqueza de detalhes muito maior. Mas acho que essa parte só vai desagradar os mais fanáticos, que na pior das hipóteses, podem ler o livro e se aprofundar nos detalhes.

        Você também diz que “não há drama, não há suspense, não há algo que leve o espectador até o final com um mínimo, que seja, de curiosidade.”

        Então você justifica essa sua opinião dizendo que é sabido o que aconteceu com os A’s na temporada em questão. Bom, se eu estou entendendo, você assume que todas as pessoas que vão assistir o filme são fãs da MLB, ou que pelo menos vão ter a curiosidade de pesquisar anteriormente para saber qual foi a campanha do time? Nesse caso eu discordo novamente. Muitas pessoas que vão assistir ao filme conhecem muito pouco ou nada do esporte, então deverão ficar curiosas para saber o que aconteceu com aquele time, com aquelas pessoas que ousaram ir contra o padrão estabelecido.

        E finalmente, o que realmente me agrada no filme é o fato de que ele consegue ser um filme com uma identidade clara. Ele trata de esporte, sem nenhum tipo de invenção piegas ou melodramas do tipo. A mensagem está lá. Não vê quem não quer.

        André, sempre gostei da maneira que você escreve, e não era minha intenção lhe ofender com meu primeiro comentário. Eu entendi, e continuo entendendo, que você usou argumentos pessoais para classificar o filme como um erro. E eu, utilizando a minha opinião pessoal, achei o post um erro, e nada do que você diga vai me fazer mudar de idéia.

        Mas o que não gostei mesmo foi da sua resposta. Eu discordei do post, usando a mesma frase que você usou para criticar o filme, e você mais de uma vez quis de alguma forma me diminuir. Você pode até não concordar com as minhas considerações, mas presumir que uma pessoa não tem capacidade de argumentar é algo bastante arrogante. Você não me conhece, não sabe o que eu faço, então por favor não faça suposições a meu respeito.

        Não vou deixar de ler as coisas que você escreve por isso, mas a imagem que eu tinha de você mudou um pouco. Você pode até dizer que não se importa com isso, mas eu me importo o suficiente para vir aqui conversar com você.

        PS. Juliano, você tem algum problema comigo?

        AK: Bom, vamos por partes…
        Primeiro, o filme. Agora você apresentou seu ponto de vista e a forma como você entendeu “Moneyball”. É uma visão pessoal (assim como a minha, obviamente) que eu não pretendo mudar. A intenção do post não é essa.

        Não suponho que todas as pessoas que viram/verão o filme leram o livro, gostam de MLB e conhecem a história. Sustento que, para mim (que li, gosto e conheço), o filme falha. Argumento que filmes baseados em livros devem lhes fazer jus. E acrescento que o caminho que tinha esse objetivo – com Soderbergh como diretor – produziria, a MEU ver, um filme melhor.

        Agora, nossa interação aqui. Não escrevi que você não tem capacidade de argumentar. Escrevi que dizer, simplesmente, que “este post é um erro”, é mais fácil do que explicar por quê. Não fiz absolutamente nenhuma suposição a seu respeito. Tratei apenas do que você escreveu. De forma que não entendo por qual motivo sua opinião sobre mim mudou, uma vez que você também não me conhece.

        O que me importa, aqui, é oferecer elementos para gerar debates. Conseguimos. Objetivo atingido.

  2. Willian Ifanger disse:

    Bom, eu preciso assistir esse filme….já li de tudo sobre ele, mas de críticos de cinema…interessante saber a opinião de quem entende do esporte envolvido e do que se trata o assunto do filme (muitos críticos não tem a menor ideia disso).

    Se serve como sugestão, vi dois filmes muito bons esses dias (não sei se você já assistiu):

    “Contágio”, do mesmo Soderbergh, esse sim com mais características de documentário (grande filme, muito tenso).

    “O Espião que Sabia Demais”, outro ótimo filme, clássico filme de espionagem. Gary Oldman incrível.

  3. Marcel de Souza disse:

    Pô André, eu gostei do filme. Talvez porque não tenha lido o livro. O Brad Pitt realmente está bem. Acho que filme mostra bem, pelo menos um pouco, essa cultura de vestiário, o diretor mostrar para as “estrelas” o quanto importa vencer. Tem muito time aqui do Brasil que precisava aprender com isso (estou pensando num time paulista de 3 cores aqui…). A parte da vigésima vitória eu prendi a respiração, achei muito emocionante mesmo. Não sei, talvez por você já ter conhecimento sobre a história inteira o filme não tenha te “pegado”.

    Deixo aqui dicas de filmes também recentemente assistidos:

    – Os Decendentes: George Clooney está muito bem, e o filme é ótimo, uma comédia dramática (ou seria um drama com algum traço de comédia?)

    – Drive: estéticamente é muito bom, mas é meio violento na parte final. Se não gosta de sangue, não veja.

    – A Pele que Habito: Típico filme do Almodovar, com seus pros e contras, mas esse eu acho que tem mais pros.

    1 abraço!

  4. anna disse:

    Adoro beisebol, e mesmo sendo um erro, queto ver o filme.

  5. Muriel disse:

    Oi André. Eu li o livro e vi o filme. Aliás, pouca gente percebeu aqui no Brasil que o autor do livro é o mesmo que escreveu Blind Side (cuja análise, no livro, é muito mais ampla do que a história do personagem principal que foi retratada nos cinemas).
    O que eu te pergunto é o seguinte: pesquisando na internet, eu vi que o Beane gosta muito de futebol e inclusive assessora um time da ISL. Você tem conhecimento de algum exemplo e/ou resultado concreto? Alguém já tentou utilizar seriamente algo parecido no futebol?
    Valeu,
    Muriel

    AK: Beane adora futebol e é membro do conselho de administração do San Jose Earthquakes, da MLS. Sobre a utilização de novas estatísticas no futebol, os métodos estão em plena aplicação na Inglaterra. Inclusive com a contratação de algumas pessoas envolvidas na revolução que aconteceu no beisebol. Escrevi sobre o tema no Lance!, aqui: http://blogs.lancenet.com.br/andrekfouri/2011/06/24/camisa-12-53/

    Um abraço.

  6. Leonardp disse:

    André, gosto muito do seu trabalho. Porém, vc tem o péssimo defeito de achar que todas as pessoas são burras e só você é o inteligente.
    Humildade é um ponto diferenciador em qualquer ser humano.

    AK: Obrigado pelo elogio. Quanto à crítica, uma vez que você não me conhece, é presunção de sua parte. Prefiro debater com argumentos, só isso. Um abraço.

  7. Leandro Azevedo disse:

    Falando de sabermetrics, já veio ou pretende vir alguma vez para a Sloan Sports Analytics Conference, André?

    Esse ano estarei a trabalho em Boston na época e já garanti a vaga… vou ver se é legal e interessante quanto falam mesmo.

    AK: Apenas li a respeito. Se você for e quiser enviar um relato com comentários, fique à vontade. Um abraço.

  8. Juliano disse:

    André, não conhecia nada sobre o Oakland A’s, Billy Beane, sabermetrics ou mesmo baseball. Portanto, não sabia da existência do livro. Logo, não sabia que existiam 3 roteiros e quem eram as pessoas envolvidas.

    Partindo desta visão, não achei o filme assim um erro. E acho que ele consegue mostrar essa revolução, claro, de forma resumida, mas se o espectador quiser, ele entende.

    Acho legal ser inspirado em história real. Gostei do gostinho dos bastidores, dispensando e trocando jogadores. Negociando com 2 ou 3 times ao mesmo tempo, diálogos para convencer o outro manager, essas coisas. Claro, que de forma resumida. Mas se o espectador quiser, consegue extrapolar na sua imaginação como deve ser isso realmente.

    Sim, falta drama. Mas talvez, para um leigo como eu, a esperança de ver até onde o time iria naquela temporada, a sempre possível demissão e a decisão final de Beane, foi o que fez assistir até o fim.

    Assim, ainda na minha ótica de leigo, achei o saldo final positivo. Mas eu consigo te entender, já me aconteceu com outros filmes ou outra coisa parecida. E concluo com a frase feita que, a decepção é do tamanho da expectativa gerada. Talvez, por conhecer tanto do assunto, ter lido o livro e etc, talvez, foi o que te ocorreu.

    Grande abraço!

    AK: Compreendo seu ponto de vista. A questão, para mim, é a seguinte: “Moneyball”, o filme, é sobre Billy Beane e o Oakland A’s de 2003. “Moneyball”, o livro, é sobre a histórica revolução analítica que aconteceu no beisebol. A minha opinião é que o filme, mesmo com as dificuldades e as diferenças que devem ser consideradas, deveria fazer jus ao livro. Esse era o plano de Soderbergh. Um abraço.

  9. Juliano disse:

    Quando li lembrei, mas esqueci de comentar: perfeita observação sobre Pitt desde Onze Homens.

  10. José Sá disse:

    O filme é sim um erro, mas não totalmente. As atuações são boas porque os atores fazem papéis comuns aos seus estilos, ao seu modo de ser. Tomo como exemplo o Brad Pitt. Ele incorpora mais uma vez aquele personagem canastrão, meio galã e meio cafajeste. Nada demais. O Peter Brand foi bem interpretado por uma pessoa que, como todos sabemos, é um ator decente, mas erra na escolha de seus papéis (este, com certeza não foi uma falha). As peças encaixam-se bem, mas como o André falou, faltam elementos para transformá-lo num bom filme sobre beisebol. Em toda a minha vida, nunca assisti a um filme sobre esportes que possa ser chamado de decente. Moneyball tinha tudo para ser uma pequena porcaria, por isso, relutei bastante antes de sentar na frente da tv e passar umas boas horas vendo o filme. O que vi me agradou. O diretor tentou colocar alguns elementos dramáticos, não acho que estes estejam ligados aos problemas pessoais do personagem principal, mas ele tenta atribuir ao jogo um grau de dramaticidade, romantismo e o faz de maneira satisfatória, inclusive. O grande problema é a tentativa de mescla com elementos apelativos e outros não apelativos, para tornar o filme agradável ao público. Acho que o filme seria muito melhor se estivesse no gênero documentário, pois o sistema Moneyball e as tais sabermetrics seriam bem melhor explanadas. Ou seja, a falha do filme é tentar ser apelativo, é tentar ser mais um filme de esporte no meio de tantos outros que são muito ruins. Ainda bem que, mesmo com as obrigações comerciais, o diretor conseguiu mesclar o apelo à elementos não tão triviais a filmes sobre esportes. O erro do filme foi ter sido filmado em hollywood, e compreendo que, mesmo assim, sobram bons momentos e o apelo emocional(suspense, drama, conflitos…), pelo menos em minha opinião, é trabalhado muito bem quando o beisebol é transformado, pelo diretor, num esporte romântico. Portanto, apesar de tudo, considero um bom filme e uma luz no fim do túnel, pois estou cansado de assistir filmes sobre esportes que contentam-se, tão somente, em serem blockbusters. Moneyball é bom, por ser um filme entre o comercial e o alternativo, por isso digo que não é um erro.

  11. Paulo Drumond disse:

    Assisti o filme ontem, indicado por um amigo com o seguinte comentário: “Veja lá como o futebol deveria ser trabalhado. Os jogadores contratados de acordo com suas aptidões para as necessidades específicas da equipe.”
    Nunca havia ouvido falar dos Oakland Athletics ou de Billy Beane e meu conhecimento sobre beisebol e a MLB tende a zero (por baixo).
    Eu tinha uma finalidade de ver o filme e o objetivo dele foi plenamente cumprido. Inclusive já o recomendei a outros amigos.
    Sendo assim, respeitosamente discordo do post.
    Grande abraço.

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