MARGIN CALL

21/02/2012

O grande mérito de “Margin Call – O Dia Antes do Fim” é prender o espectador exclusivamente com os diálogos e interações entre personagens.

Não há cenas violentas (e aqui não falo da violência cretina, tipo John Rambo e sua faca aniquilando o exército russo inteiro. “Pulp Fiction”, por exemplo, tem sequências extremamente violentas que não agridem os neurônios do público), não há sexo evidente ou sugerido, não há um personagem que seja muito mais interessante do que os outros, não há conteúdo dramático – a não ser o que fica bem claro logo no início.

Um analista financeiro júnior (Zachary Quinto) recebe um pen drive de seu chefe (Stanley Tucci), que tinha acabado de ser demitido de um fundo de investimentos. Ao investigar os arquivos, o rapaz basicamente descobre que a empresa está quebrada, e que, em breve, todo o mercado financeiro americano estará no buraco.

A informação vai subindo na cadeia de comando, com as diferentes reações dos executivos, as transferências de responsabilidades e as tentativas de maquiar a verdade.

O filme inteiro se passa do momento em que o executivo é demitido até a manhã seguinte, período no qual o mercado está fechado e a empresa deve se preparar para começar o dia seguinte de forma a sobreviver.

É tenso até nos momentos em que deveria ser leve, quase sempre quando Will Emerson (executivo senior, com senso de humor britânico e uma queda para a irresponsabilidade, interpretado por Paul Bettany) está em cena, tentando convencer a garotada mais jovem de que tudo o que está acontecendo – a gigantesca crise do mercado imobiliário nos EUA – é normal.

John Tuld (Jeremy Irons) é o dono, Jared Cohen (Simon Baker) é o sócio que quer jogar toda a sujeira para debaixo do tapete, Sam Rogers (Kevin Spacey) é o funcionário antigo que enfrenta dramas de consciência e Sarah Robertson (Demi Moore) sabe que será a próxima a cair.

Os diálogos são intensos, mostram como os diferentes perfis pessoais (educação, formação, experiência e princípios éticos) levam a variadas formas de pensar e agir diante de um cenário potencialmente devastador.

No final, há uma clara mensagem sobre ganância, óbvio.

Mas, como disse lá em cima, o mérito de “Margin Call” fica com quem escreveu as falas.

Me parece que é o primeiro trabalho desse nível do diretor J. C. Chandor. Se alguém souber mais sobre ele, por favor avise.

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MILLENIUM

19/02/2012

“Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é um desses filmes que não terminam quando você sai do cinema.

Além das conversas que gera, também obriga o espectador a vasculhar a internet em busca de informações.

No meu caso, uma parte da pesquisa foi feita antes de comprar os ingressos. Depois, em casa, voltei ao computador.

Se ainda for novidade para você: o filme é a adaptação (americana, cujo título é The Girl With The Dragon Tatoo) do livro do escritor sueco Stieg Larsson. Larsson escreveu mais duas histórias que também serão transformadas em filmes pela Sony Pictures, com o mesmo elenco.

Essa versão americana não é a primeira adaptação do livro. Uma produção sueca fez grande sucesso em 2009, especialmente pela atuação da atriz Noomi Rapace como Lisbeth Salander, personagem principal da trama.

A história é simples: Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é um jornalista deprimido por ter sido condenado a pagar uma indenização milionária a um empresário que ele acusou numa reportagem, com provas falsas. Sua vontade de desaparecer é contemplada ao receber uma oferta de trabalho de um industrial atormentado.

Henrik Vanger o contrata para investigar o desaparecimento de sua sobrinha, Harriet, que aconteceu 40 anos antes.Vanger está convencido de que Harriet foi assassinada por um parente, mas a polícia não conseguiu elucidar o caso.

Antes de procurar Blomkvist, Vanger encomendou um dossiê sobre o jornalista. Lisbeth Salander (Rooney Mara, indescritivelmente brilhante), encarregada pela investigação, acaba ajudando Blomkvist a descobrir o que aconteceu com Harriet.

Vou parar por aqui, para não enfurecer quem pretende ver o filme.

Lisbeth Salander é quem domina a trama. Uma jovem perturbada por um passado de abusos familiares, que tentou matar o próprio pai e vive sob tutela do estado. Ela não quer se comunicar com ninguém, parece sempre a ponto de explodir num acesso de raiva e violência. O talento para acessar computadores alheios e a memória fotográfica são suas conexões com um mundo que ela parece odiar.

Duas cenas são repugnantes, mas extremamente bem feitas. Quando seu tutor a violenta, e quando ela se vinga dele.

Salander é a consciência de Stieg Larsson, que testemunhou um estupro de uma adolescente quando era jovem, e jamais se perdoou por não tentar ajudá-la. A obra de Larsson é muito influenciada pelo episódio, com referências permanentes à violência contra mulheres e, também, às atividades de grupos neonazistas na Suécia.

A atuação de Rooney Mara é duplamente espetacular. Ela se transformou em Salander – o que já não seria fácil – sabendo que seu desempenho seria automaticamente comparado com o da atriz do filme sueco, que só recebeu elogios.

Seu “casamento” com Blomkvist é preciso, uma vez que o personagem de Daniel Craig é, digamos, desinteressante diante da complexidade de Salander.

O filme é quase todo rodado em Estocolmo e na ilha onde mora toda a família Vanger (na fictícia cidade de Hedestad), durante o rigoroso inverno sueco. Fotografia belíssima.

Impressiona também a riqueza de detalhes do material fotográfico que Blomkvist e Salander analisam em busca do assassino de Harriet, magnífico trabalho de produção.

Direção de David Fincher (“Clube da Luta”, “A Rede Social”), roteiro de Steven Zaillian (“A Lista de Schindler”, “Missão: Impossível”, “Hannibal” e “Moneyball”).

O thriller é muito bem conduzido, com tensão crescente e revelaçoes surpreendentes, até o final. E termina deixando claro que a história continua.

Não vi a produção sueca, mas pretendo. Assim como os próximos dois filmes, com lançamentos previstos para o final de 2012 e 2013.

Suspeito que muita gente fará o mesmo.


MONEYBALL FALHA

16/02/2012

Desculpe pela inconveniência, mas Moneyball é um erro.

Um erro como “filme de esportes”, um erro como “filme de beisebol”, até mesmo um erro simplesmente como um filme.

A demora e as idas e vindas para que a produção começasse deveriam ter sido sinais de que era melhor deixar o excelente livro de Michael Lewis em paz.

As seis indicações para o Oscar (incluindo melhor filme e melhor ator) são um exagero.

Moneyball teve três roteiros e três diretores diferentes envolvidos no projeto. Steven Soderbergh deveria ter comandado as filmagens, mas a Sony Pictures não gostou da ideia de fazer um filme que tivesse algumas características de documentário.

Minha impressão é que o resultado teria sido muito melhor se Soderbergh pudesse trabalhar como pretendia, uma vez que a grande falha do filme é não conseguir mostrar que o livro de Michael Lewis retrata um momento revolucionário.

Lewis publicou Moneyball em 2003, contando a história de como Billy Beane, executivo do Oakland Atlhetics (MLB), lançou mão de novas formas de avaliar jogadores de beisebol para descobrir valor de desempenho em atletas baratos e montar um time competitivo com baixo orçamento.

Essa nova maneira de medir performance gerou um tipo de estatísticas chamado de sabermetrics. Basicamente, são fórmulas matemáticas usadas para isolar o desempenho individual de um jogador, levando em conta apenas o que ele pode controlar.

O esporte entrou em guerra. De um lado, os scouts, que confiavam em “olho clínico”, experiência e intuição para identificar talento. De outro, os “sabermétricos”, geralmente jovens engenheiros ou administradores carregando seus laptops.

Billy Beane ficou do lado dos nerds e deu início a uma nova era no beisebol profissional. Hoje, não há um time que não tenha pelo menos um analista de números, o que alterou até a valorização e a remuneração dos jogadores.

Moneyball, o filme, falha na tarefa de mostrar essa revolução. Claro que não seria simples fazê-lo, é muito conteúdo para pouco tempo. Mas só há um momento em que se tenta evidenciar que o episódio foi histórico: quando Beane vai a Boston conversar com os Red Sox (que tentaram contratá-lo) e ouve do dono do time que ele estava mexendo com a sobrevivência de quem ainda se apoiava num modo ultrapassado de pensar.

Mas tudo bem. Vamos deixar de lado a importância dessa mensagem (talvez valiosa apenas para quem leu o livro e se interessa pelo tema) e olhar para o filme apenas como uma obra de entretenimento.

Moneyball falha de novo.

Não há drama, não há suspense, não há algo que leve o espectador até o final com um mínimo, que seja, de curiosidade.

Pois é sabido o que aconteceu com o Oakland A’s na temporada de 2003: começou mal, esquentou, ganhou 20 jogos seguidos e foi eliminado nos playoffs.

O único conteúdo dramático fica por conta da filha de Beane, que aparece duas vezes para perguntar ao pai se ele perderia o emprego. Novamente: sabe-se que não perdeu (afinal, Beane levou os A’s aos playoffs na temporada anterior. Não seria demitido por causa de um mau começo).

Então Moneyball é uma perda de tempo? Não totalmente.

Brad Pitt está bem no papel de Beane. Chama a atenção o fato de ele estar comendo ou bebendo algo em todas as cenas (creio que isso começou com “Onze Homens…”).

Jonah Hill também fez um belo trabalho como Peter Brand, o geek que convenceu Beane a “pensar fora da caixa”. Detalhe: Peter Brand é personagem fictício. O assistente de Beane no mundo real era Paul DePodesta, que não aceitou participar do filme e não autorizou o uso de seu nome.

No Brasil, Moneyball vai se chamar “O Homem Que Mudou o Jogo”. Perdeu-se a oportunidade de mostrar como, e de dizer que foi para sempre.


ENTRETENIMENTO POSSÍVEL

30/12/2011

“Missão: Impossível – Protocolo Fantasma” vale o ingresso.

Se não fosse por outras razões, já seria por (no quarto episódio) garantir 133 minutos de entretenimento e não causar aquela sensação frequente em sequências de “deveriam ter parado no último”.

O filme tem o pacote completo da franquia: ação sem descanso, boa dose de pancadaria, pessoas que não são quem você pensa e Ethan Hunt fazendo o impossível para completar sua missão – no caso, salvar o mundo.

Li algumas críticas desabonadoras e entrei no cinema meio ressabiado, mas saí com a conclusão de que quem não gostou deste não tem nenhum motivo para ter gostado dos anteriores.

A propósito: o meu preferido é o segundo filme, o que começa com Hunt escalando uma rocha e recebendo sua missão ao usar um óculos Oakley. Além disso, é o episódio que tem a música Take a Look Around (Limp Bizkit), que é, de longe, a melhor já usada na série.

Mas “Protocolo Fantasma” tem algo mais – a direção de Brad Bird, que certamente levou sua experiência com animações (“Os Incríveis”, “Ratatouille”) para a empreitada produzida por Tom Cruise.

As cenas que você sabe que não são reais são insanamente reais.

Uma sequência é especial. Hunt, com luvas criadas para transformar pessoas em aranhas, escala as janelas de vidro do prédio mais alto de Dubai para manipular o servidor de internet do local. Obviamente, uma das luvas para de funcionar. Obviamente, ele se contorce em movimentos inimagináveis a um quilômetro de altura. Obviamente, ele escolhe um método ainda mais suicida para voltar.

O negócio é vertiginoso ao extremo. Provavelmente me obrigará a rever o filme num cinema IMAX.

Outro mérito da franquia MI é navegar muito bem pela fronteira entre as forçadas de barra aceitáveis e o chamado “território Van Damme” (alguns prefeririam “território Dolph Lundgren”, mas acho injusto até com Van Damme). Mesmo as cenas impossíveis para um ser humano são feitas de um jeito cool, que não produzem o riso do ridículo.

Falando em riso, o filme tem momentos divertidos, graças principalmente a Benji (Simon Pegg, que apareceu no terceiro episódio), o cérebro responsável pelo aparato tecnológico da equipe de Hunt.

“Missão: Impossível – Protocolo Fantasma” termina com o recebimento de uma nova missão, o que praticamente garante um quinto filme.

Comprarei o ingresso.


JOGANDO COM VIDAS

27/03/2011

“Jogo de Poder” é um filme sobre a maldade. O fato de contar uma história real piora as coisas.

Naomi Watts faz o papel de Valerie Plame, agente secreta da CIA que tem sua indentidade exposta por oficiais da administração Bush, depois que seu marido, o diplomata Joe Wilson (Sean Penn), escreve um artigo no “The New York Times” essencialmente chamando George W. Bush do que ele é: um mentiroso.

O vazamento criminoso, publicado por um colunista do jornal “The Washington Post” levou à condenação de Lewis “Scooter” Libby, crápula que serviu como chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, a 30 meses de prisão. Bush o livrou da cadeia, mas não do rótulo de canalha internacional.

Sobre o filme, o crítico André Barcinski escreveu o seguinte, na Folha de S. Paulo: “… qualquer filme com Naomi Watts e Sean Penn merece ser visto”. De total acordo.

Watts exala a tensão inimaginável que permeia os dias de quem mente por profissão, e ainda tem de lidar com o reflexo da atividade secreta em sua vida pessoal.

Penn (incrivelmente parecido com Dustin Hoffman) ministra mais uma clínica de interpretação, na pele do ex-embaixador democrata agarrado a convicções e princípios em alto risco de extinção.

Ambos estão ótimos na simplíssima, mas emocionante, cena em que ele se desculpa por ter iniciado o processo que a fez perder “tudo o que era”, e ela diz que é “o que está na frente dele”.

Baseado nos livros que Plame e Wilson escreveram sobre o episódio que alterou suas vidas, o filme é dirigido por Doug Liman, de “Identidade Bourne” e “Sr. e Sra. Smith”.

DISCLAIMER: Liman também foi um dos produtores de “Ultimato Bourne”, que considero o melhor filme de ação que já vi. Portanto assumo, sem nenhum constrangimento, minha parcialidade ao tratar do tema.

As passagens sobre a rotina de uma agente da CIA ficam ainda mais interessantes quando lembramos de que se trata de um caso real. Ficam, também, mais preocupantes.

A história de como políticos inescrupulosos, ajudados por jornalistas tanto quanto, destroem pessoas e famílias, é uma amostra pequena de uma barbaridade: a operação militar americana no Iraque, baseada na mentira de que lá havia armas de destruição em massa.

“Jogo de Poder” cumpre seu papel com brilho.


AS PALAVRAS IMPORTAM

06/03/2011

Consegui, finalmente, ir ao cinema.

Foi necessário encontrar um horário não muito convencional (23h10), e um conveniente serviço de compra de ingressos pela internet. Mais sobre isso no fim do post.

Fui ver “Bravura Indômita”. Amigos, que filme.

Li bastante a respeito da adaptação dos irmãos Coen do romance que o americano Charles Portis escreveu em 1968.

Sei que, em algum momento da infância, vi o primeiro filme baseado no livro, que rendeu a John Wayne seu único Oscar de melhor ator. Mas não me lembro bem e certamente não o vi com interesse que tenho hoje.

Saber que Ethan e Joel Coen não viram o filme de 1969 me deixou ainda mais intrigado.

Não pretendo estragar a experiência de ninguém, mas não dá para falar sobre o filme sem , bem… falar sobre o filme.

“Bravura Indômita” é sobre a história de Mattie Ross (Hailee Steinfeld, adorável), uma menina de 14 anos que contrata um agente da lei para levar à Justiça o assassino de seu pai.

O papel principal, vivido por Wayne no filme de 69, é do agente federal Rooster Cogburn. Jeff Bridges está espetacular na pele do velho bêbado e sarcástico, que tem de lidar com a menina brilhante e obstinada.

As duas atuações já valem o filme, e levarão a conversas sobre qual é melhor. Mas a fotografia caprichada do vasto território dos faroestes americanos também merece atenção.

Nada disso, porém (e é claro que é questão pessoal), é tão importante quanto os diálogos, que foram transplantados diretamente das páginas escritas por Portis há 43 anos.

É um tipo de inglês que não se fala mais. Uma linguagem que provoca, pelo menos em mim, um interesse semelhante ao que se vê em produções brasileiras de época, em que se recupera um português longínquo. As interações entre os personagens são fascinantes.

Uma coisa que farei é alugar o DVD para rever o filme sem legendas. No cinema, fiquei o tempo todo tentando ignorá-las, mas é impossível. O que não impediu que o poder das palavras atravessasse a tela.

Gosto muito dos irmãos Coen. “Fargo” (1996) é um desses filmes que, quando estão na TV, eu paro para ver. “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007) é brilhante.

O último trabalho deles também é. E de uma forma parecida com o que fizeram em “Onde os Fracos…”, em que você acaba torcendo pelo vilão.

Em “Bravura Indômita”, você torce por Mattie Ross como se ela fosse sua filha.

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Serviços funcionam tão mal no Brasil, que é preciso comemorar quando encontramos um que entrega o que promete.

O sistema de compra de ingressos, com lugar marcado, do site ingresso.com é elogiável. Principalmente a opção por usar o cartão de crédito como a própria entrada do cinema.

Nas primeiras vezes, tratei o processo com ceticismo. Não vão encontrar o pedido… a maquininha não vai ler o cartão… mas não falha.

Recomendo.


127 HORAS

02/12/2010

A história é insana.

O livro é incrível.

O filme é imperdível.

O trailer está aqui.


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